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Qual a origem e os riscos da briga entre Trump e o presidente do Fed

Donald Trump e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell
Donald Trump e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell Imagem: Saul Loeb, Kamil Krzaczynski / AFP

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, confirmou no domingo ter se tornado alvo de uma investigação do Departamento de Justiça (DOJ), em meio a uma disputa com o presidente dos EUA, Donald Trump.

Em mensagem de vídeo publicada na rede social X, Powell atribuiu a abertura do inquérito à pressão exercida pelo governo Trump sobre a política de juros do Banco Central americano.

O depoimento de Powell ao Congresso em junho, a respeito da reforma de US$ 2,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões) da sede do Fed em Washington, levou à abertura de uma investigação criminal por procuradores federais.

Durante o primeiro mandato de Trump e desde o retorno do republicano à Casa Branca, há um ano, ambos entraram repetidamente em confronto devido a decisões sobre taxa de juros.

O presidente do Fed tem defendido que a instituição deve definir sua política monetária de maneira independente, guiada por dados econômicos, e não sob pressão política.

O que gerou a disputa entre Trump e Powell?

Trump tem se tornado cada vez mais explícito em suas críticas às decisões do Fed. Em março passado, quando o Fed manteve as taxas de juros estáveis, o presidente afirmou que o Fed estaria "muito melhor se cortasse as taxas".

Em abril, no chamado anúncio do Dia da Libertação [quando anunciou a primeira leva de tarifas de importação], Trump disse que taxas de juros mais baixas ajudariam a economia dos EUA a lidar com suas novas e abrangentes tarifas sobre bens adquiridos de importantes parceiros comerciais.

Depois de chamar Powell de "estúpido" e "cabeça oca", Trump foi além nas suas críticas à política monetária em julho, após o Fed ainda não ter cortado as taxas, dizendo que ela estava "prejudicando as pessoas".

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Trump também tomou medidas contra outras figuras importantes do Fed, incluindo a integrante do conselho de administração Lisa Cook, a quem tentou destituir sob a acusação de fraude hipotecária. O litígio ainda aguarda uma audiência na Suprema Corte dos EUA.

Em meados de 2025, a imprensa dos EUA noticiou que o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, seria o principal nome para substituir Powell quando seu mandato terminasse, em maio. Em dezembro, Trump disse em reunião com o seu governo que havia oferecido o cargo a Bessent, mas que ele não o aceitou.

No mesmo dia, Trump deu a entender que o seu conselheiro econômico, Kevin Hassett, seria o favorito. Outros relatos na imprensa americana sugerem que o governo Trump estava sondando uma lista mais ampla de possíveis sucessores, que inclui ainda o ex-diretor do Fed Kevin Warsh, o atual diretor Christopher Waller e Rick Rieder, executivo da gestora de investimentos BlackRock.

No final do ano passado, Trump disse que anunciaria o sucessor de Powell em janeiro. A crescente especulação em torno do sucessor evidencia a enorme pressão que o presidente do Fed já vinha enfrentando muito antes de a investigação criminal se tornar pública, no fim de semana.

Por que Powell está sendo investigado?

A investigação decorre do depoimento de Powell perante o Comitê Bancário do Senado dos EUA em junho, quando ele minimizou os custos excessivos relacionados à reforma da sede do Fed e a recursos de luxo desnecessários, incluindo terraços e jardins na cobertura, pisos de mármore de alta qualidade e coleções de arte particulares.

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O presidente do Comitê Bancário do Senado, Tim Scott, havia expressado preocupação após um artigo do jornal New York Post comparar o projeto ao Palácio de Versalhes, na França - a antiga residência real perto de Paris, encomendada pelo rei Luís 15.

Powell rebateu o que chamou de alegações "imprecisas" e "enganosas" e negou a aquisição de itens de luxo, afirmando que o projeto, autofinanciado pelo Fed e não com o dinheiro dos contribuintes, era voltado à modernização e redução de custos a longo prazo.

Um mês depois, a congressista republicana Anna Paulina Luna anunciou que encaminharia ao Departamento de Justiça uma acusação contra Powell de perjúrio e de fazer declarações falsas.

O DOJ raramente comenta investigações em andamento. Neste domingo, um porta-voz da agência se recusou a reagir à declaração de Powell, afirmando apenas que "a Procuradoria-Geral instruiu os procuradores federais a priorizar a investigação de qualquer abuso do dinheiro dos contribuintes."

Powell chama investigação de ameaça

Em sua mensagem de vídeo, Powell classificou a investigação como uma "ação sem precedentes" que, segundo ele, estaria ligada à pressão do governo Trump sobre a política de taxas de juros.

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"Esta nova ameaça não tem que ver com meu depoimento em junho passado ou com a reforma dos prédios do Federal Reserve. Esses são pretextos", afirmou.

"Trata-se de saber se o Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e condições econômicas ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação."

"O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças", sublinhou Powell, acrescentando que continuaria a exercer o cargo "com integridade e o compromisso de servir ao povo americano".

A investigação fez o dólar cair ontem, enquanto o ouro atingia o recorde de US$ 4.600,33 por onça (o equivalente a 31,1 gramas).

A Casa Branca negou que Trump esteja por trás da investigação lançada pelo Departamento de Justiça. O próprio Trump negou qualquer conhecimento ou envolvimento, mas reiterou sua crença de que Powell "certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom em construir prédios".

"O que deveria pressioná-lo [Powell] é o fato de que as taxas estão muito altas. Essa é a única pressão sobre ele", disse Trump neste domingo em entrevista à emissora NBC News.

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O que faz o Fed e por que sua independência é crucial?

Como Banco Central da maior economia do mundo, a missão principal do Fed é a execução de uma política monetária, o que inclui definir as taxas de juros, manter a inflação próxima à meta de 2%, apoiar o nível máximo de emprego e manter o sistema financeiro estável.

A instituição também supervisiona os bancos, atua como credor de última instância durante crises financeiras e ajuda a manter o fluxo de crédito na economia dos EUA, que por décadas também tem sido o mercado de investimentos mais atraente do mundo.

Como o dólar americano é a chamada moeda de reserva mundial, com a qual grande parte do comércio global é realizado, as decisões do Fed sobre as taxas de juros têm efeitos globais em cascata, influenciando custos de empréstimo, fluxos de capital e crescimento econômico muito além dos Estados Unidos.

O Fed não é financiado pelo governo dos EUA. Ele obtém rendimentos de empréstimos a bancos corporativos e de seus investimentos em títulos do governo americano, moedas e outros valores mobiliários.

A independência do Fed é amplamente vista como crucial para evitar pressão política, que muitas vezes se baseia em objetivos de curto prazo devido ao ciclo eleitoral presidencial de quatro anos dos EUA.

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As decisões de cortar ou aumentar as taxas de juros são vitais para evitar alta inflação e estabilizar a economia americana durante recessões.

Embora essas medidas possam ser impopulares entre os eleitores, os defensores da independência do Fed dizem que entregar o controle das taxas de juros a políticos eleitos coloca em risco a estabilidade da economia.

Hoje, um grupo de presidentes de bancos centrais de todo o mundo manifestou seu apoio a Powell. "A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos a quem servimos", afirmam os signatários, entre eles o brasileiro Gabriel Galípolo e Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu.

Muito além das decisões do Fed, economistas e líderes empresariais alertaram que as tarifas comerciais sem precedentes de Trump prejudicaram a confiança dos investidores na dívida soberana dos EUA e no futuro da economia em longo prazo.

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