No dia 4 de abril de 1983, a zona sul de São Paulo viveu um dia de fúria. Um protesto contra o desemprego no largo 13 de Maio, em Santo Amaro, deu lugar a uma explosão popular, com lojas e supermercados saqueados. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, e cerca de 70 foram detidas.
"A dose não deve se repetir", disse o chefe do policiamento da capital paulista. Mas no dia seguinte foi ainda pior. Em torno de mil manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Não conseguiram ocupar o espaço, mas derrubaram parte das grades de proteção.
Depredações aconteceram em outras regiões além da zona sul, e um homem morreu, baleado, durante um saque no Jardim São Luis. O aumento dos tumultos levou a mais de 300 prisões.
Franco Montoro, então governador de São Paulo, negociou com os líderes dos protestos e, aos poucos, a situação se tranquilizou.
Aqueles dias de cólera tiveram acompanhamento da reportagem da Folha, mas não só. A indignação popular foi discutida sob os mais diversos ângulos na seção Tendências / Debates, lançada pelo jornal havia quase sete anos.
Nascido em 22 de junho de 1976, o espaço se consolidava em meio à fervura como uma arena aberta às divergências, uma iniciativa incomum na imprensa brasileira.
Nas edições seguintes aos protestos de 1983, Tendências / Debates publicou artigos do então vice-governador, Orestes Quércia, do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e do padre Paul-Eugène Charbonneau. E ainda do médico do Sindicato dos Metalúrgicos e ex-deputado federal David Lerer, e dos professores da USP José Pastore e Reginaldo Prandi, entre outros.
Cada leitor que tirasse suas conclusões a partir dos argumentos desfiados por líderes da política e da economia, além de expoentes da sociedade civil. O pluralismo exposto naquele momento em Tendências / Debates estaria no cerne do Projeto Folha, amadurecido ao longo dos anos 1980.
O parágrafo que abre a seção é praticamente o mesmo meio século depois: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo".
Essa introdução foi escrita por Cláudio Abramo, diretor de Redação naquela época.
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"A seção nasceu em meados dos anos 1970, em plena ditadura. Hoje, a convivência de opiniões livres, divergentes e até contraditórias parece algo natural. Naquele contexto, porém, era uma ousadia. O princípio de ouvir diferentes vozes e expor mais de um lado de cada questão acabou por se espalhar pela imprensa brasileira, tornando-a menos engajada, mais plural e, por consequência, mais independente", afirma Luiz Frias, publisher da Folha.
Nestas cinco décadas de existência, Tendências / Debates publicou artigos de todos aqueles que estiveram à frente da Presidência da República no período da redemocratização.
No início de outubro de 1992, em meio ao processo de impeachment, Fernando Collor foi afastado das suas funções no Planalto. No final daquele ano, renunciou.
Um ano depois do afastamento, saiu na Folha o texto "Pois É, pra quê?", em que Collor concluía: "Com a consciência tranquila e a certeza do dever cumprido, aguardo pela justiça dos homens".
Em abril de 2019, quando estava preso em Curitiba, Luiz Inácio Lula da Silva escreveu um artigo intitulado "Por que têm tanto medo do Lula livre?" para o Tendências / Debates. "Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim", afirmou.
Em novembro de 2024, duas semanas antes de ser indiciado pela Polícia Federal por crimes como tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro assinou um texto na seção cujo título era "Aceitem a democracia". Rendeu mais de 500 comentários no site da Folha, a maioria absoluta contrária à publicação.
Esses e outros artigos de Tendências / Debates foram reunidos no livro "A Palavra e o Poder - uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira", lançado no ano passado pela editora Civilização Brasileira.
O espaço também tem destacado pontos de vista de líderes do Legislativo e do Judiciário. Ao encerrar seu período de dois anos como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o então ministro Luís Roberto Barroso apresentou o balanço das suas iniciativas na seção.
"Considero Tendências / Debates, da Folha, um dos espaços mais importantes da imprensa brasileira, em termos de conteúdo e repercussão. Publicar ali é uma forma qualificada de participação no debate público, aberto tanto para integrantes da sociedade civil quanto para agentes políticos", afirma Barroso, que deixou o STF em outubro do ano passado e retornou à advocacia.
"Eu mesmo, sempre que há algum tema relevante em relação ao qual possa dar alguma contribuição, sou colaborador", complementa.
Entre os nomes da sociedade civil a que se refere Barroso, está José Vicente, advogado e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.
"Sou um dos homens negros que mais publicaram em Tendências / Debates e vi o negro sair da invisibilidade e chegar a matéria de capa na Folha. Plural, diverso, independente e disruptivo, é um espaço privilegiado de debate e um instrumento poderoso de transformação", afirma José Vicente.
Entre os intelectuais que já publicaram na seção, estão Abdias Nascimento, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Rose Marie Muraro e Sueli Carneiro –os artigos desses cinco autores também estão no livro "A Palavra e o Poder".
"Em tempos de polarização, um espaço como Tendências / Debates é de suma importância para a troca de ideias de forma plural, diversa e respeitosa, algo fundamental para a nossa democracia", afirma Patricia Blanco, presidente do Palavra Aberta, instituto dedicado à liberdade de imprensa e à educação midiática.
De acordo com ela, colaboradora da seção, "são 50 anos promovendo as mais importantes discussões para o Brasil, onde o respeito ao contraditório e as opiniões divergentes estimulam o diálogo, pensamento crítico e a liberdade de expressão".
Frei Betto é outro nome que contribui regularmente com a seção. "Louvo Tendências / Debates por ser um espaço democrático, de opiniões diferentes e divergentes, inclusive em relação à linha editorial do jornal", diz o escritor.
Controvérsias
Tendências / Debates tem se notabilizado ainda como um espaço aberto às controvérsias. As trocas de críticas –em tom às vezes duro, mas respeitoso– são constantes.
Em 1º de outubro de 2007, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto considerado por ele como um "desabafo" em relação à insegurança na cidade de São Paulo.
"Passei um dia na cidade nesta semana —moro no Rio por motivos profissionais— e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres", afirmou.
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Uma semana depois, o jornal publicou no mesmo espaço um artigo do escritor Ferréz em resposta a Huck. Fez um texto em primeira pessoa, como se fosse o motoboy que roubou o relógio do apresentador. "A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada", escreveu.
Mais adiante, o jornalista Reinaldo Azevedo divergiu de Ferréz com veemência e, dias depois, o cantor e compositor Zeca Baleiro criticou Huck e Azevedo.
Naquele mês, o assunto dominou o Painel do Leitor. Os autores dos quatro artigos receberam "vaias e aplausos" dos leitores, como diz Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.
"Se o jornal é a praça pública aberta que se contrapõe ao condomínio fechado das redes sociais, uma iniciativa como a de Tendências / Debates é o coreto da praça, em que as ideias se apresentam para seu público, para vaias e aplausos. A longevidade da seção mostra o acerto dela", afirma o jornalista.
Quase uma década depois, em março de 2016, ano em que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência, Wagner Moura escreveu na seção o artigo "Pela legalidade". O ator considerava o processo de impeachment um "golpe clássico".
Dois dias depois, o jornalista André Barcinski respondeu ao ator com o texto "Coisa de Cinema". Dizia que, "a exemplo dos melhores cineastas e roteiristas, Moura criou uma narrativa fantástica que serve totalmente ao gosto de seu público-alvo".
Como havia ocorrido muitas vezes antes desse episódio e aconteceria tantas outras depois, vieram "vaias e aplausos" aos textos de Tendências / Debates. Erguido há meio século, com mais de 36 mil artigos publicados, o "coreto da praça" continua movimentado.

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