Michel Temer (MDB) disse nesta sexta-feira (26) que, se não foi um presidente da República popular, espera que o documentário "963 Dias" o transforme em "um ex-presidente popularíssimo". Ao seu estilo, afirmou que se trata de "um filme extraordinário".
O doc, dirigido pelo tarimbado cineasta Bruno Barreto, que foi exibido para convidados nesta sexta em São Paulo, "presta contas" da polêmica administração de Temer, que sucedeu a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016 após o traumático processo de impeachment, assumindo o Planalto tachado de "golpista" pelos ex-aliados.
Questionado sobre se a intenção do filme era ser uma "retratação histórica", o ex-presidente disse que esse não foi o objetivo. Ele negou que se trate de um filme chapa branca, apesar do tom laudatório de alguns trechos.
Reportagem da revista Veja mostrou em maio que o fundo Moriah Asset, vinculado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, comprou cota de R$ 1 milhão de financiamento do filme no final de 2023. À época, Elsinho Mouco, que foi marqueteiro de Temer, confirmou a informação na condição de produtor do documentário.
Nesta sexta, na pré-estreia, o ex-presidente disse ao jornal Valor Econômico que não houve dinheiro público nem patrocínio do Banco Master para a produção.
No docuentário, quarenta entrevistados se revezam para contar a história. Questionado sobre por que não havia petistas na lista, o diretor Barreto disse que eles "foram convidados, mas não quiseram falar".
O documentário começa contextualizando a escolha de Temer como vice de Dilma —uma tentativa de Lula, com o PMDB, de estabilizar a correlação de forças com o Congresso depois da crise iniciada com o Mensalão em 2005. Em certa altura dos depoimentos, Temer conta bem-humorado como Lula não o queria como vice de Dilma —e como o partido contornou a situação.
A ex-presidente é retratada como uma mulher digna, porém sem traquejo para a política, que, no seu segundo mandato, acossada pela conjuntura econômica, acaba "terceirizando" a negociação política no Congresso para o vice —considerado um bom negociador que "almoçava, jantava e tomava café todo dia" com os deputados.
Após esse movimento, surge a Lava Jato e sucedem-se outros erros políticos, como o confronto do governo petista com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), que acabaram desembocando no impeachment. Como um personagem trágico, Temer parece ser conduzido a assumir o cargo pelas circunstâncias.
O filme passa rápido pelo período de interinidade de Temer, iniciado no afastamento temporário de Dilma, e se prende mais às medidas tomadas após sua efetivação no cargo pós-impeachment.
Figuras importantes do governo e jornalistas avaliam que Temer "aproveitou" sua impopularidade para assumir o custo político de implantar medidas duras, contidas no programa "Ponte para o Futuro" emedebista, como o teto de gastos e as reformas.
O Caso Joesley, no dia 299 de governo, é apresentado —e logo interrompido por uma digressão biográfica em que Temer lembra a infância e rememora sua carreira jurídica e política, do começo com o ex-governador Franco Montoro em São Paulo, passando pela Constituinte até se transformar em um parlamentar influente.
Marcantes nesse momento —e em todo o filme— são as intervenções de sua filha Luciana Temer, ativista e professora, em que ela tenta contextualizar o homem Temer e defender seu legado. Segundo ela, nada daquela formalidade do pai é ensaiada. "Ele é assim. Nunca vi meu pai de chinelos", exemplifica.
A discussão do caso Joesley é retomada e transformada em um debate sobre a imprensa, que teria, amparada no Ministério Público, avançado o sinal em um áudio que não teria elementos suficientes para incriminar o presidente.
No dia 370, Temer faz um contundente discurso em que diz que não vai renunciar. A conclusão dos entrevistados é que a crise teria sido provocada como uma reação a às reformas econômicas propostas pelo governo, especialmente a da Previdência.
Esse episódio, segundo os entrevistados, mostra o momento em que o governo tem dificuldades em seguir e Temer se transforma em um "guardião de crises".
A coisa pioraria com a greve dos caminhoneiros, que paralisou o país em 2018 e teve forte impacto negativo no PIB.
O filme vê nesse protesto nas estradas, articulado por WhatsApp de maneira que surpreendeu as autoridades e os jornalistas, o ovo da serpente do que seria uma das formas de moldar a nova forma de fazer política, polarizada, que se instalou no país depois —e desde então já bem aproveitada pelo bolsonarismo.
Aqui, a crítica à criminalização da política tradicional remonta aos erros da Lava Jato, com direito até a depoimento do ministro Alexandre de Moraes —alçado ao Supremo pelo próprio Temer em 2017 —, e termina mostrando os atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023.
Enfim, segundo o próprio Temer, o filme se trata de uma crítica não à "polarização de ideias" —que ele defende— mas à "radicalização" que hoje domina o país —e de um "apelo ao consenso".
O filme deve ser lançado em setembro nos cinemas de 10 capitais.

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