Trump quer garantir que os Estados Unidos possam explorar os materiais raros encontrados nos solos ucranianos. Isso inclui ferro, manganês, urânio, titânio, lítio, minérios de zircônio, além de carvão, gás e petróleo.
Trata-se, portanto, de cerca de uma centena de materiais, segundo estimativas geológicas ucranianas. Esses recursos são cobiçados por grandes grupos industriais, especialmente para fabricar componentes elétricos, como os usados em smartphones.
Segundo o ministério da Economia ucraniano, o país possui uma das maiores reservas europeias desses materiais raros: falam-se em trilhões de dólares, dos quais mais de 70% estariam nas regiões de Dnipropetrovsk, Donetsk e Luhansk. Essas áreas ficam na linha de frente dos combates. Os recursos também interessam ao governo russo.
Matérias-primas que representam metade do PIB ucraniano
Homem trabalha em construção de nova linha de defesa da Ucrânia — Foto: Evgeniy Maloletka/AP
Esses solos já são explorados, representando cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) da Ucrânia, além de constituir dois terços das exportações ucranianas.
Por isso, quando os combates se aproximam da linha de frente, o que fecha por último são os locais de exploração. Isso acontece porque há um enorme interesse econômico para a Ucrânia em continuar operando essas minas.
No Donbass, por exemplo, é possível ver ônibus levando mineiros para seus locais de trabalho, enquanto ao fundo militares disparam tiros de artilharia.
Para os americanos, esses recursos também representam um interesse estratégico, já que 80% dos materiais raros usados na indústria americana vêm da China.
A exploração dos solos ucranianos permitiria a Washington uma menor dependência do mercado chinês. Consequentemente, esses materiais também interessam aos europeus pelas mesmas razões.
Kiev favorável à exploração de seus solos
Volodymyr Zelensky na Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2024 — Foto: REUTERS/Caitlin Ochs
De acordo com a mídia ucraniana, Kiev seria favorável à exploração de seus solos. Isso até faria parte do plano para a vitória ucraniana — que havia sido elaborado muito antes de Trump ser eleito presidente.
O plano em questão permitiria que países aliados explorassem os recursos ucranianos, com uma condição: que houvesse garantias reais de que essas terras não estivessem nas mãos dos russos.
Esse é um assunto de defesa para a Ucrânia, além da Europa e Otan. Em 2014, foi iniciada uma parceria entre a o governo ucraniano e seus aliados ocidentais para garantir o fornecimento de matérias-primas, como o titânio — amplamente utilizado na área de defesa.
Os elementos de terras raras são compostos por 17 matérias-primas, como disprósio, neodímio e cério, descobertos no final do século 18 na Suécia.
Embora suas propriedades sejam diferentes, esses elementos foram agrupados sob um mesmo nome porque geralmente estão presentes no mesmo solo.
Uma vez retirado da terra, o material deve passar por um tratamento de "separação" dos diferentes minerais em operações químicas que, às vezes, envolvem ácidos.
Na verdade, as terras "raras" são bastante abundantes no planeta. Em 2024, o Centro Geológico dos Estados Unidos estimou que haveria mais de 110 milhões de toneladas no mundo.
Mais de um terço dessas reservas estão na China, com 44 milhões de toneladas. Em seguida, vêm Vietnã (22), Brasil (21), Rússia (10) e Índia (7).
A demanda continuará aumentando. Para atingir a neutralidade de carbono até 2050, a União Europeia, por exemplo, precisará de 26 vezes mais terras raras do que usa atualmente. O cálculo foi feito pela Universidade KU Leuven para a associação europeia de produtores de metais, Eurometaux.
Campos de tulipas são vistos floridos diante de turbinas de energia eólica perto de Creil, na Holanda — Foto: Yves Herman/Reuters
Cada um desses minerais tem seus próprios usos na indústria: európio para telas de televisão, cério para polimento de vidro e lantânio para catalisadores de motores de combustão.
Mas alguns recursos também podem ser encontrados em drones, parques eólicos, discos rígidos, motores de carros elétricos, lentes de telescópios e jatos de combate.
Suas propriedades às vezes são únicas. Por exemplo, as qualidades do neodímio e do disprósio os tornam ideais para a fabricação de ímãs permanentes para turbinas eólicas no mar.
Uma vez instalados, esses ímãs exigem pouca manutenção e oferecem alto desempenho, o que facilita a operação dessas usinas.
Donald Trump e Xi Jinping em 2019. — Foto: Reuters
A China tem uma ampla base de riqueza, mas seu domínio é "o auge de uma política industrial de longo prazo" e "a vantagem obtida com o atraso na regulamentação das indústrias extrativas", afirma Jane Nakano, pesquisadora em Washington do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS).
Ao longo de anos de grande investimento público, Pequim manteve uma extensa rede de refino desses materiais, levando muitos países produtores a exportar seus minerais para lá.
A China também tem mais patentes relacionadas a terras raras do que o resto do planeta junto, observa Nakano. Esse domínio foi alcançado ao custo de grandes danos ambientais.
As tensões entre a China e o Ocidente, seja por questões comerciais ou geopolíticas, são diversas. Isso indica uma necessidade urgente de Bruxelas e Washington diversificar seu abastecimento de terras raras.
A preocupação tem precedentes históricos: um conflito territorial levou a China a cortar o fornecimento de terras raras ao Japão em 2010. Desde então, o arquipélago asiático diversificou seus fornecedores, fechando um acordo com a australiana Lynas e desenvolvendo uma subsidiária de reciclagem.
Outro alerta foi emitido nos Estados Unidos em maio de 2019. Em meio a uma guerra comercial com Washington, o presidente chinês Xi Jinping visitou uma fábrica de tratamento de terras raras e ameaçou bloquear a exportação desses materiais.
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