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2016: o ano em que o algoritmo mudou quem somos

A web 1.0 era estática. Você lia. Não respondia. Eram assim os sites estáticos dos anos 1990.
A web 2.0 trouxe a promessa que mudaria tudo: você não era mais só consumidor, mas também produtor. Blogs, fóruns, wikis, redes sociais nascentes. A informação deixou de ser unidirecional e o consumidor saiu da postura passiva para uma versão ativa.

Era uma internet quase romântica. Palavras como coletividade, conexão e colaboração tinham um viés genuinamente positivo. O americano Clay Shirky, no livro "Lá Vem Todo Mundo", descreveu esse momento como uma revolução na capacidade humana de se organizar sem precisar de organizações formais. Era uma bela ideia.

Mas por trás dessa beleza, algo estava sendo construído. O algoritmo não foi criado para te ajudar a encontrar conteúdo relevante. Foi criado para te vender. Trocar a alma por dados. Sugiram anúncios personalizados. Produtos direcionados. Mensagens políticas calibradas para o seu perfil psicológico específico.

Apenas dois anos depois, viu-se o que podia fazer com esses dados. A Cambridge Analytica colheu informações de mais de 50 milhões de usuários do Facebook sem autorização e criou perfis psicográficos de eleitores. Com conhecimento de 150 curtidas de uma pessoa, o modelo conseguia prever sua personalidade melhor do que o próprio cônjuge. Com 300 curtidas, entendia o usuário melhor do que ele próprio.

Esse arsenal foi usado na campanha de Donald Trump nas eleições americanas de 2016 e no referendo do Brexit. Não foi hacking ou espionagem. Foi o algoritmo funcionando exatamente como foi projetado: para te manipular.

Eli Pariser, autor de "O Filtro Invisível", já havia antecipado tudo em 2011: "Os editores humanos profissionais são caros. O código é barato. Cada vez mais, vamos depender de uma mistura de editores não profissionais e códigos informáticos para decidir o que ver, ler e ouvir."

O que Pariser descreveu era a morte do chamado gatekeeper humano. Por décadas, o jornalismo exerceu esse papel de "porteiro". O editor decidia o que era notícia. Havia critérios. Imperfeitos, com seus próprios vieses, mas humanos. Como Shirky apontou: "o que identificava alguma coisa como notícia era o julgamento profissional."

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