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Huawei desafia big techs com estrelas chinesas da IA e preço baixo

Radar Big Tech - O mercado brasileiro de nuvem é amplamente dominado por big techs americanas. Como a Huawei pretende convencer as empresas locais a adotarem sua estrutura de IA?
Mark Chen -
O que estamos diagnosticando no mercado, especialmente no início deste ano, é um verdadeiro boom na adoção de inteligência artificial.

As empresas estão migrando da fase de projetos-piloto para a implementação em escala massiva. O grande desafio dessa transição é econômico: o custo para manter a IA cresce de forma gigantesca. Diante disso, a maioria dos clientes busca uma estratégia multicloud, combinando performance de qualidade e eficiência financeira. É aí que reside a nossa oportunidade.

Radar Big Tech - A grande novidade da Huawei para a região é o Modelo de IA como Serviço. Na prática, o que é esse conceito e como ele se diferencia do que o mercado oferece hoje?
Mark Chen - No estágio inicial da IA, as empresas compravam hardware próprio -- duas ou quatro placas de processamento -- e tentavam configurar os modelos de código aberto por conta própria para fazer inferências. É um processo complexo que exige pessoal qualificado para lidar com a infraestrutura e gera alto custo operacional. O Modelo de IA como Serviço muda essa lógica. Agora, as desenvolvedoras configuram essa infraestrutura e entregam a funcionalidade pronta para o usuário final por meio de APIs simples.

É uma estratégia global, já oferecida na região da Ásia-Pacífico, no Oriente Médio e nas Américas. Na China, a adoção já atingiu o patamar de consumo de massa, ao ponto de estarmos operando no limite da capacidade para acompanhar a demanda de mercado.

O ritmo está acelerado na Ásia-Pacífico, e a América Latina se posiciona como pioneira na adoção de IA. Empresas do Brasil, México, Colômbia, Chile e Peru já usam modelos comerciais bem conhecidos, como OpenAI e Gemini, mas também estão altamente familiarizadas com os modelos de código aberto chineses. Por isso, a aceitação tem sido rápida.

O Modelo de IA como Serviço funciona como a rede elétrica: a maioria das pessoas não precisa gerar a própria energia em casa, elas apenas a consomem diretamente da tomada. Os desenvolvedores de IA só precisam configurar as APIs para criar soluções. Acreditamos que, nos próximos um ou dois anos, a maioria das companhias passará a consumir a IA diretamente através de modelos como serviço, pois não faz sentido econômico construir uma camada tecnológica internamente
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina

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Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina Imagem: Divulgação/Huawei

Radar Big Tech - Já existem casos concretos na América Latina de empresas que migraram das big techs norte-americanas para a Huawei Cloud atraídas por esse modelo?
Mark Chen -
Sim. Em um trabalho recente de prospecção na América Latina, engajamos cerca de 60 clientes que hoje utilizam o Modelo de IA como Serviço da Huawei. Alguns deles usavam soluções da Anthropic ou da OpenAI, mas, quando nós apresentamos os modelos chineses de código aberto e as provas de conceito levaram apenas algumas horas ou dias para atestar a acurácia, a validação foi rápida.

Não estamos falando de uma migração total e imediata de todas as cargas de trabalho. Mas os clientes fazem a substituição daquelas tarefas em que os clientes se sentem confortáveis em rodar open source. Esse aspecto competitivo do custo tem feito muitas grandes empresas buscarem a Huawei para discutir estratégias de multicloud.

As empresas confiam no que testam e, quando olham para o fator financeiro, a mudança é significativa: em determinados cenários, os modelos de código aberto chegam a ser de 50% a 70% mais baratos
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina

Radar Big Tech - A prateleira da Huawei oferece apenas inteligência artificial desenvolvida na China ou o cliente encontra opções ocidentais de código aberto, como os modelos da Meta ou do Google?
Mark Chen -
Nossa estratégia central não é rotular as soluções como "modelos chineses", mas, sim, oferecer os principais modelos de código aberto do mundo rodando perfeitamente na nossa infraestrutura de IA.

É inegável que, no cenário atual, os modelos de código aberto vindos da China estão liderando o setor globalmente. Nós integramos de forma muito ativa opções de ponta como DeepSeek, Qwen (Alibaba) e GLM-5 (Z.ai). Sobre modelos como o Llama 3, da Meta, entendemos que os clientes que priorizam essa tecnologia costumam buscar as nuvens americanas nativas. Por isso, a demanda por eles dentro da nossa estrutura não se mostrou tão forte até o momento.

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Radar Big Tech - No campo do hardware, a Huawei disputa mercado diretamente com as GPUs da Nvidia através da sua linha de chips Ascend. Como convencer o mercado brasileiro a trocar o padrão da indústria pelo componente chinês?
Mark Chen -
Nossa abordagem de convencimento não foca na venda isolada do hardware, mas na entrega do resultado final. O consumo por meio de pacotes de tokens não exige que a empresa faça um investimento bilionário em capital para montar um data center próprio. O cliente pode iniciar um projeto focado em produtividade gastando a partir de US$ 100 ou US$ 500 mensais. Se o caso de uso se provar eficiente, ele dá o próximo passo para uma estrutura de Plataforma como Serviço (PaaS).

Não estamos vendendo uma máquina que o cliente não saberá como operar ou como transformar em produtividade real; estamos vendendo a capacidade de processamento pronta
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina

Radar Big Tech - A latência e a soberania dos dados são preocupações críticas para setores regulados no Brasil. Onde os dados trafegados pela Huawei são armazenados?
Mark Chen -
Já temos capacidade de processamento de IA em data centers localizados no próprio território brasileiro, desenhada para a parcela de clientes que exige latência ultrabaixa ou que, por questões regulatórias, precisa manter seus dados hospedados no Brasil. Contudo, cerca de 80% do volume do nosso serviço de tokens hoje é voltado para criação de códigos, uma aplicação em que há tolerância para esperar um ou dois minutos pelo retorno do comando, além de não envolver dados sensíveis de cidadãos.

Por outro lado, em setores como o financeiro, há regras nacionais rígidas, por causa da LGPD no Brasil. A inteligência artificial traz uma produtividade fantástica, mas a segurança é inegociável; se a IA vazar dados corporativos, para fora ou para dentro da organização, temos um incidente grave. Por isso, atuamos junto aos clientes para estruturar suas fundações de IA, mapeando os níveis de sensibilidade de cada caso de uso.

Radar Big Tech - Brasil e China estão tão distantes em termos de maturidade e desenvolvimento de nuvem e inteligência artificial?
Mark Chen - Há uma percepção de que a distância geográfica se reflete na tecnologia, mas a realidade do ambiente corporativo é diferente. A China exibe uma força indiscutível na fabricação de infraestrutura, supercomputadores e no desenvolvimento dos modelos de base. Contudo, quando avaliamos a adoção da IA pelas empresas no dia a dia, as duas nações estão muito próximas.

Vemos frequentemente executivos de bancos brasileiros viajando à China para inspecionar como o setor financeiro de lá aplica IA, retornando ao Brasil e implementando os mesmos casos de uso imediatamente. O mesmo vale para a automação em call centers e assistentes de programação. A China está ligeiramente à frente em alguns aspectos, como o regulatório e o de escala, mas o ecossistema brasileiro se move na mesma velocidade.

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O Brasil foi e continua sendo um pioneiro global na transformação digital e no uso agressivo da nuvem na última década; o país possui uma comunidade de engenheiros de software altamente técnicos e capacitados
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina

Radar Big Tech - A Huawei adota um posicionamento de mercado mais discreto no Brasil em comparação ao barulho das concorrentes. Qual é o tamanho real da operação de nuvem da empresa na América Latina?
Mark Chen - Nossa operação em nuvem está estruturada em cinco regiões-chave na América Latina. No total, atendemos uma base de cerca de 40 mil clientes na região, apoiados por uma rede de mais de mil parceiros locais.

Embora a nuvem ainda represente uma fração do faturamento global da corporação, o negócio cresce a uma taxa anual de 57% na América Latina. Mantemos o maior ritmo de crescimento entre os grandes provedores de nuvem (hyperscalers) do mercado global e nosso objetivo institucional é claro: ser a primeira escolha em estratégias de multicloud na América Latina.

A governança corporativa entendeu que depender de um único fornecedor de nuvem gera o risco de "lock-in" [adesão por contrato à tecnologia de uma só empresa], deixando os custos fora de controle a longo prazo. Oferecemos estabilidade técnica: nossa infraestrutura registra a marca de mais de mil dias de operação contínua sem nenhuma interrupção ou queda de sistema (downtime). Além disso, apostamos em um suporte de proximidade zero. Se um cliente bancário no Chile enfrenta um incidente nas primeiras horas da noite, nossa equipe na China trabalha no fuso horário invertido para o problema amanhecer corrigido.

Radar Big Tech - Para encerrar: a escalada nas tensões e a disputa geopolítica entre EUA e China pelo domínio da IA prejudicam ou impulsionam os negócios da Huawei no Brasil?
Mark Chen - A forte competição no desenvolvimento global da inteligência artificial atua, na verdade, como um benefício direto para as empresas e para o avanço da tecnologia. A concorrência obriga toda a indústria a otimizar a eficiência e a reduzir drasticamente o custo de processamento dos tokens. Recentemente, vimos movimentos de mercado em que desenvolvedoras reduziram os preços de suas principais assinaturas corporativas de IA em até 75%. Esse reajuste força uma racionalização financeira em toda a cadeia de fornecedores.

Essa dinâmica de mercado permitirá a pequenos e médios negócios no Brasil consumirem soluções robustas de inteligência artificial gastando menos de US$ 10 mil mensais para impulsionar suas operações. À medida que o hardware evolui, o custo por token diminui, e a existência de ótimos modelos de código aberto obriga o mercado a equilibrar qualidade técnica e viabilidade econômica. Sob a perspectiva econômica, a competição é saudável e garante que a IA se torne um recurso acessível a todos.

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Se queremos que a inteligência artificial seja adotada de forma massiva pela sociedade, o custo precisa cair; do contrário, as empresas acumularão despesas tecnológicas sem o respectivo ganho em produtividade real
Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para América Latina

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Imagem: ARTE/UOL

Mapa ao vivo do Instagram faz Meta ser alvo de pressão por investigação

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Imagem: Divulgação

O Ministério da Justiça foi acionado para investigar a Meta após o Instagram liberar no Brasil uma função para compartilhar a localização de usuários ao vivo. Para a CTRL-Z, entidade por trás do pedido, o recurso é "nocivo" por facilitar a ação de perseguidores, colocar mulheres à mercê de abusadores e entregar rotinas a assaltantes. Além da segurança, a preocupação é com a privacidade, já que dados sobre deslocamento e localização podem ser usados para entrega de anúncio, treinamento de inteligência artificial ou levar à conclusão sobre o estado de saúde dos usuários.

Permite que um perseguidor identifique rotinas, locais frequentados, horários de deslocamento e padrões de comportamento. Em relacionamentos abusivos, vira um instrumento de controle. A partir da localização, é possível inferir informações que o consumidor nunca compartilhou explicitamente. Se frequenta regularmente uma clínica, é possível inferir que ele tem problemas de saúde. E, mesmo que tenha consentido em compartilhar com um grupo específico, a localização pode vazar. Além disso, a Meta acessa todos os dados de localização e pode utilizá-los para fins como para direcionamento de anúncio, treinamento de IA
Luã Cruz, Diretor de Litigância Estratégica da CTRL-Z

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A Meta atribuiu a um erro a chegada da função aos usuários e suspendeu o compartilhamento de localização do Instagram, que ficou pouco mais de um dia no ar. "Estamos cientes de que o recurso Mapa do Instagram foi disponibilizado acidentalmente para usuários no Brasil. Estamos trabalhando para corrigir isso."

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DEU TILT

Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo.

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