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Jogo tem hora marcada. A violência também?

Quando o Brasil entrar em campo contra a Escócia amanhã às 19h, as cidades vão parar. Bares enchem, o trânsito muda de ritmo, amigos se encontram e até quem estiver trabalhando encontrará uma tela ou um rádio. Há, sim, beleza nessa capacidade do futebol de criar pertencimento e memória coletiva. Contudo, quando o resultado contraria expectativas, aquilo que para a maioria vira resignação ou piada pode aumentar o risco dentro de casa.

Para mulheres que já vivem sob coerção, dependência financeira e isolamento, a frustração do parceiro com a derrota, a dificuldade de se afastar do agressor e perdas financeiras com apostas podem precipitar um episódio de violência doméstica. Nas seis horas após a partida, o registro de boletins de ocorrência subiu em 5,7% nos municípios mais expostos a uma decepção esportiva. Apesar disso, não registraram aumento de denúncias via ligação ao 180. Essas estimativas são das pesquisadoras Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda, em estudo recém-aceito e baseiam-se em 2.105 partidas do Campeonato Brasileiro.

E infelizmente, não estamos sozinhos. No futebol inglês, aquelas partidas iniciadas antes das 19h foram seguidas de um aumento de 8% nas ocorrências com agressores alcoolizados nas 16 horas seguintes. Fora deste contexto, os registros caem durante a partida e sobem na mesma medida quando termina, de acordo com Ria Ivandić e coautores ao analisarem 434.596 ligações e 800 partidas dos times Manchester City e Manchester United.

Nessa linha, derrotas inesperadas de times da casa que eram favoritos aumentaram em cerca de 10% os registros de violência de homens contra esposas e namoradas dentro de casa. Já quando as derrotas eram previsíveis, não houve aumento nos casos. Esses são os resultados do estudo dos economistas David Card e Gordon Dahl ao analisar a liga de futebol americano.

Então, se o risco muda em janelas curtas, a resposta não pode ser pensada apenas a partir da existência formal de serviços. Uma das poucas avaliações brasileiras do tema, feita por Elizaveta Perova e Sarah Reynolds, mostra por quê: em capitais e grandes áreas metropolitanas, onde há mais infraestrutura de atendimento e alternativas para deixar a relação, a abertura de delegacias da mulher aparece associada a uma queda de 17% nos homicídios femininos. Já em cidades menores e áreas rurais, não há efeito detectável. Ou seja, simplesmente abrir uma nova delegacia não basta.

Então, se os registros indicarem aumento após partidas importantes, a resposta pública pode ser ajustada a esse intervalo. O 180 poderia ser mais divulgado nos horários de maior risco; as delegacias especializadas poderiam ampliar equipes; e o fluxo entre polícia, hospitais, assistência social e abrigos poderia ser preparado antes que a demanda apareça. Clubes, emissoras e plataformas também poderiam testar mensagens em horários estratégicos, avaliando se elas contribuem para aumentar a procura por ajuda.

Por isso, a avaliação das políticas de proteção precisa focar no percurso da vítima: se ela foi atendida, recebeu encaminhamento adequado, conseguiu medida protetiva e, principalmente, deixou de sofrer novas agressões. Sem esse processo, corremos o risco de confundir serviço disponível com proteção.

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