Filip sobre uma pedra, olhando para a câmera, com as montanhas ao fundo

Crédito, Jan Gilar

Legenda da foto, O chihuahua Filip tem dois anos e meio
    • Author, Cristina J. Orgaz
    • Role, BBC News Mundo
  • 19 janeiro 2026, 13:08 -03

    Atualizado Há 13 minutos

  • Tempo de leitura: 6 min

Filip é pequeno, peludo e leal. Um cachorro da raça chihuahua minúsculo, com traços semelhantes ao da raça papillon, mas de grande personalidade. É assim que o descreve seu dono, Jan Gilar.

No verão europeu passado, Gilar caiu em uma fenda de uma geleira na Suíça e só foi localizado quando um helicóptero de resgate avistou uma mancha cinza sobre a neve.

Era o seu cachorro, seu melhor amigo, que havia permanecido ao seu lado.

Os dois adoram as montanhas e costumam fazer trilhas juntos. Quando Filip se cansa de andar, Jan o coloca em uma mochila especial e o carrega. E assim seguem o percurso.

Ao longo do trajeto, param para comer nos pontos com as melhores vistas, descansam quando querem e exploram a natureza.

"Ele consegue andar 20 ou 30 quilômetros enquanto estou caminhando. Ainda bem que naquele dia eu não o levava na mochila nem preso à guia, porque, na queda, ele teria sido arrastado comigo e as equipes de resgate não teriam me encontrado", disse Jan à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Natural de Pilsen, na República Tcheca, Jan estava na Suíça havia menos de um mês quando ocorreu o acidente.

Jan, com um boné azul, e Filip, sobre seu ombro, olham para uma montanha

Crédito, Jan Gilar

Legenda da foto, Jan cresceu cercado por cães

"Meus pais me deram o Filip. Eles são criadores de cães, e ele era o último de uma ninhada. Eu já havia tido outro filhote da mesma mãe há algum tempo, mas ele morreu. Foi assim que o Filip chegou."

O chihuahua tem apenas dois anos e meio. Já não é mais um filhote, mas ainda é um cão jovem.

"Ele é um cachorrinho de muita personalidade. Todos no meu trabalho o adoram porque ele é muito engraçado e brincalhão. Ele adora a neve, pular e tentar pegar os flocos."

O acidente

Saas Fee, também chamada de A Pérola dos Alpes, é uma pequena cidade suíça no sudoeste do país, no cantão de Valais. A área da geleira Fee, por onde Jan e seu cachorro caminhavam, é extensa.

"Não é uma área pequena nem lisa como uma folha em branco. Ela é coberta por pedregulhos. A neve está cheia de areia ou de terra. Encontrar um buraco daquele tamanho por onde ele caiu não é fácil", explica Bruno Kalbermatten, da empresa de resgate aéreo Air Zermatt.

"Não queremos nem imaginar o que teria acontecido com Jan se ele não estivesse com o cachorro Filip, se os socorristas não tivessem visto o movimento daquele cachorrinho sobre a pedra."

Filip no meio da neve, esperando os socorristas

Crédito, Air Zermatt

Legenda da foto, Quando o helicóptero pousou, o vento das hélices arremessou Filip para trás

"Eu gosto de fazer trilhas. O Filip e eu já percorremos muitas montanhas na República Tcheca, então, quando cheguei à Suíça, fizemos o mesmo. Naquele dia, era a primeira vez que eu chegava tão perto de uma geleira. Pensei: 'Posso ir um pouco mais longe, explorar a geleira'."

"Eu almocei ali, sobre uma pedra, me levantei, dei alguns passos sobre a neve e, sem perceber, pisei em uma ponte de neve. Ela cedeu e eu caí. Tudo aconteceu muito rápido", contou Jan.

Molhado e gelado

Uma "ponte de neve" é uma estrutura natural de neve ou gelo compacto que se forma sobre uma fenda em uma geleira, criando uma passagem temporária entre dois pontos. Mas ela pode ser extremamente perigosa, pois a neve pode derreter ou ceder sob o peso.

Do lado de fora, fazia sol e o dia estava magnífico, por isso Jan havia saído naquela manhã usando bermuda e uma camiseta leve. Mas, dentro da fenda, a temperatura estava abaixo de zero, e a água escorria por toda parte.

Assim, em pouco tempo, ele ficou completamente molhado e corria o risco de hipotermia. O tempo estava contra ele.

Um buraco na neve, com o céu azul ao fundo

Crédito, Jan Gilar

Legenda da foto, Isso é o que Jan via de dentro da fenda

A foto do interior da fenda mostra um buraco mais profundo sob os pés de Jan. O shorts, o tênis de Jan e sua mão segurando o walkie-talkie também aparecem na imagem

Crédito, Jan Gilar

Legenda da foto, Abaixo, Jan via um buraco ainda mais profundo

"No começo, tentei sair sozinho. A adrenalina não me deixou perceber que meu ombro estava machucado. Mas, depois de tentar subir, notei que não era só a mão que doía. Eu estava realmente mal", disse Jan.

"Além disso, eu via que mais abaixo ainda havia uma queda maior. Se me movesse, poderia acabar em uma situação ainda pior."

"Então peguei meu walkie-talkie e tentei entrar em contato com alguém. Um desconhecido estava na mesma frequência. Ele estava, não sei, a 100 ou 200 metros de mim. Ele respondeu, pediu ajuda por helicóptero e a busca começou."

No outro walkie-talkie, quem respondeu foram Claudia e Ralf. O casal foi responsável por acionar os serviços de resgate e manter a comunicação com Jan, para que ele permanecesse calmo e descrevesse a situação dentro da fenda.

Apesar disso, embora soubessem que Jan havia sofrido um acidente, não tinham ideia de onde ele havia ocorrido e conseguiram fornecer poucas pistas sobre sua localização.

Jan, com o ombro deslocado e já em tratamento, aparece com seu cachorro Filip e Ralf, o homem que atendeu ao walkie-talkie e acionou os serviços de resgate

Crédito, Jan Gilar

Legenda da foto, Depois de sair do hospital, Jan entrou em contato com Ralf, o homem que atendeu sua chamada pelo walkie-talkie

O helicóptero vermelho da Air Zermatt procurou Jan por 40 minutos. Sabiam que, em algum ponto, a geleira Fee o havia engolido cerca de um metro e meio para baixo. Até que surgiu uma pequena pista.

"Quando caí, ouvi o Filip choramingar. Depois de um tempo, ele se sentou sobre uma pedra na geleira, e eu soube que estava me esperando", lembrou Jan.

De fato, o pequeno chihuahua permaneceu ali.

Dimensões enormes

"Decolamos com o helicóptero pouco depois das 15h. A bordo estavam um piloto, um paramédico, um médico de emergência e especialistas em resgate. Eles começaram imediatamente a vasculhar a área da geleira Fee, mas as dimensões são enormes", contou Kalbermatten.

"De repente, um dos especialistas em resgate disse ter visto um movimento sobre uma pedra. O piloto voou até lá e viu um cachorro pequeno esperando bem ao lado de um buraco", acrescentou.

Era o ponto do desabamento que levava à fenda. E até Jan.

Mas, quando o helicóptero pousou pela primeira vez, Filip foi arremessado pelo deslocamento de ar provocado pelas pás.

A estrutura de ancoragem construída pelos socorristas, com cordas verdes e vermelhas sobre o buraco

Crédito, Air Zermatt

Legenda da foto, A estrutura construída pelos socorristas permitiu resgatar Jan com segurança

A equipe de resgate então construiu uma estrutura de ancoragem na borda do buraco. Faltava pouco.

Eles fixaram as cordas, polias e um arnês para descer em segurança e resgatar Jan com segurança.

"O pequeno chihuahua observava cada movimento e, assim que os socorristas retiraram seu dono, o cachorrinho abanava o rabo, feliz por ver Jan de volta à superfície", disse Kalbermatten.

"Quando saí do hospital, entrei em contato com Claudia e Ralf para agradecê-los por terem salvado minha vida. Também sou muito grato à equipe de resgate e aos profissionais do hospital.

"Não sou um montanhista novato e, ainda assim, não percebi o quão perigoso é caminhar sobre uma geleira. Aprendi a lição da pior forma", concluiu Jan.