Cena do filme Belén

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Legenda da foto, Longa narra o drama de Belén, jovem de 27 anos presa após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán
    • Author, Rute Pina
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Há 2 minutos

  • Tempo de leitura: 7 min

Em 2011, a advogada argentina Soledad Deza decidiu abortar. Mãe de dois filhos, ela se deparou com a clandestinidade ao tentar interromper uma gestação.

"Comecei a pensar naquele momento: se eu, com recursos e privilégios, sentia medo de ser presa ou de um procedimento inseguro, imagine mulheres em condições piores", contou à BBC News Brasil.

O episódio foi um divisor de águas: Deza, mestre em gênero e especialista em bioética, passou a dedicar a carreira aos direitos sexuais e reprodutivos.

Quatro anos depois, ela assumiria o caso que se tornaria um dos símbolos da luta pela legalização do aborto na Argentina — que culminou na aprovação da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE), em 2020.

Essa história inspirou Belén, filme escolhido para representar a Argentina no Oscar e no Goya e que integra a shortlist de Melhor Filme Internacional da premiação americana.

O longa narra o drama de Belén, jovem de 27 anos presa após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán, no noroeste do país.

Belén — nome fictício adotado para preservar a identidade da jovem durante o processo judicial — procurou atendimento médico devido a uma hemorragia vaginal intensa, mas acabou acusada de ter descartado um feto no banheiro da unidade.

Presa pela polícia, foi condenada a oito anos de prisão por "homicídio agravado pelo vínculo".

Deza assumiu a defesa no dia da condenação e identificou irregularidades imediatas: profissionais de saúde atuaram como testemunhas de acusação, em violação ao sigilo médico, e o prontuário que indicava aborto espontâneo foi ignorado.

Soledad Deza

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Legenda da foto, A advogada Soledad Deza assumiu caso que se tornaria um dos símbolos da luta pela legalização do aborto na Argentina

"Havia inconsistências e a ausência de um exame de DNA que vinculasse aquele produto da gestação à Belén", explica a advogada.

"Eu já trabalhava com a noção de sigilo profissional como eixo de uma atenção em saúde baseada em direitos. Foi alarmante ver um processo em que praticamente todas as testemunhas eram profissionais de saúde", diz.

O segundo obstáculo foi o acesso ao processo. "Quando finalmente tive acesso aos autos, vi que o prontuário médico indicava, logo na primeira página, 'aborto espontâneo incompleto, sem complicações'. Isso simplesmente não havia sido considerado. Foi outro alerta."

Após esgotar os recursos jurídicos, Deza percebeu que apenas a técnica não bastaria. Para acelerar a revisão de uma sentença que poderia levar anos, ela levou o caso à opinião pública.

"Depois que apresentei um recurso para revisar a condenação e outros recursos para revisar a ordem de prisão, pensei: minha tarefa jurídica terminou. Agora, o Poder Judiciário pode usar o tempo, como costuma fazer, e essa sentença pode levar anos para ser revista. Eu precisava encurtar esses prazos", conta.

O caso comoveu a sociedade argentina, onde milhares de mulheres foram às ruas em diversos atos pelo país exigindo a libertação imediata de Belén. Também ganhou repercussão internacional, com a Anistia Internacional e a ONU se somando aos pedidos.

A condenação também recolocou o aborto no centro do debate público. À época, a prática só era permitida em casos de estupro ou risco à saúde da gestante.

Ainda assim, cerca de meio milhão de abortos clandestinos eram realizados anualmente no país, e suas complicações estavam entre as principais causas de mortalidade materna.

Uma faixa com os dizeres "Aborto Legal, Seguro e Gratuito" é vista enquanto ativistas se reúnem em frente ao prédio do Congresso Nacional durante a votação dos senadores pela nova lei do aborto, em Buenos Aires, Argentina

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Legenda da foto, Na época em que Belén foi presa, milhares de mulheres foram às ruas em diversos atos pelo país exigindo a libertação imediata da jovem

"A mobilização foi um desafio porque nos obrigou a desmontar a narrativa de que Belén era uma 'assassina'. Foi um trabalho coletivo, de disputa de sentidos, entre a defesa jurídica, os movimentos sociais e a comunicação", diz.

O caso expôs algo que, segundo Deza, muitos se recusavam a admitir. "Havia a ideia, inclusive em setores progressistas, de que o crime de aborto existia no Código Penal, mas não era aplicado na prática. O caso Belén mostrou que não era apenas uma ameaça simbólica: a lei era usada como instrumento de disciplinamento."

Ela lembra que, em pesquisas anteriores, já havia identificado esse padrão. Entre 1992 e 2014, apenas em Tucumán, foram registrados 532 processos por aborto, incluindo abortos espontâneos. "O caso Belén deu urgência política a essa injustiça."

Adaptação para a tela

O roteiro de Belén parte do livro Somos Belén, de Ana Correa, e de Libertad para Belén, escrito pela própria Soledad Deza em 2016.

O filme foi roteirizado, dirigido e protagonizado pela atriz argentina Dolores Fonzi. Rodado em Tucumán, foi lançado em novembro de 2025 e, no Brasil, está disponível no Prime Video.

Dolores Fonzi interpreta Soledad Deza em cena do filme Belén

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Legenda da foto, Filme foi roteirizado, dirigido e protagonizado por Dolores Fonzi

"Acho que, para qualquer advogada ou advogado — mas especialmente para quem faz advocacia feminista, que costuma ser desvalorizada no mundo técnico —, é muito significativo que façam um filme sobre um caso assim e que ele tenha essa recepção do público", diz Deza.

No plano pessoal, conta a advogada, a adaptação da história para o cinema também foi desafiadora.

"Quando representamos os interesses de outras pessoas, também atuamos. Mas uma coisa é atuar em nome de outra pessoa; outra é me ver na tela. Antes da estreia, me mostraram um corte do filme e eu pensei: 'Uau, estou vendo a minha parte vulnerável'. No começo, foi difícil me reconhecer", reflete.

"Foi difícil se expor dessa forma. Quem está acostumada a defender temas impopulares ou que geram forte resistência tende a se mostrar muito forte, sentimos a necessidade de parecer imbatíveis. Mas a verdade é que quem atua pelos direitos humanos vive essa dualidade: o sentimento de justiça e coragem, e, ao mesmo tempo, uma profunda tribulação pela carga que se carrega."

"Achei importante nos humanizar e talvez também nos 'desdemonizar'. Temos vida privada, momentos de fragilidade, esquecemos reuniões escolares, temos família, como qualquer pessoa."

'Mensagens de esperança'

Para Deza, o filme carrega "mensagens de esperança". A principal, diz ela, é a dimensão coletiva da resposta às injustiças. "As lutas se fortalecem na construção coletiva. Os movimentos ampliam a legitimidade das reivindicações."

Outra mensagem central, segundo a advogada que inspirou o filme, é a crítica ao sistema de justiça. "Os aparatos de criminalização têm viés de gênero e racismo estrutural. O Judiciário não prende todas as pessoas de quem suspeita. Há recortes claros de classe, raça e gênero."

Mesmo após a legalização do aborto, em 2020, ela avalia que os direitos das mulheres seguem sob ataque na Argentina. "Desde o primeiro dia do governo Javier Milei, houve ofensivas diretas. O fechamento do Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade foi emblemático."

Ela cita como exemplo o desmonte de políticas de enfrentamento à violência, a falta de financiamento de programas ligados ao aborto e medidas que afetam a população trans. "O presidente incorporou à narrativa oficial a ideia de que o aborto é 'homicídio agravado pelo vínculo'."

Segundo Deza, isso gera confusão social e insegurança jurídica. "A lei [que assegura o aborto legal] existe, mas quem consegue acessá-la? Quem tem informação? Quem pode pagar?"

Cena do filme Belén

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Legenda da foto, No plano pessoal, a advogada diz adaptação da história para o cinema também foi desafiadora: 'Foi difícil me expor dessa forma'

Deza defende recolocar a laicidade no centro do debate democrático. "Religião não é, em si, obstáculo. O problema é seu uso político", diz.

Ela lembra que a maioria das mulheres que acompanhou em abortos legais tinha alguma religião. "Reduzir a discussão a pecado é um erro. A pergunta central é: você acha justo prender alguém ou colocá-la em risco de morte por abortar?"

Para ela, esta foi a mudança de enfoque decisiva na Argentina. "O caso Belén mostrou que um aborto espontâneo pode acontecer com qualquer pessoa. Isso abriu uma brecha de empatia."

A advogada segue em contato com Belén, jovem liberta em 2017, mais de dois anos depois de ter sido presa. "Ela está muito contente. Disse que vê o filme como um fechamento desse capítulo da vida dela", diz a advogada.

"A prisão deixa uma marca indelével na vida de qualquer pessoa injustamente encarcerada. E ser presa por desafiar o mandato da maternidade obrigatória deixa um estigma ainda mais profundo. Belén sempre disse, desde quando ainda estava presa: 'Não quero que ninguém mais passe pelo que eu passei'. Esse é o verdadeiro recado."