O húngaro Viktor Orbán foi batido por uma coalizão que uniu direita e centro-esquerda em torno da candidatura de Péter Magyar, um dissidente do partido do primeiro-ministro que governou o país por longos 16 anos, a ponto de virar modelo da extrema direita mundial.
Inesperada para os analistas que já davam como favas contadas a inclusão do país no rol das autocracias eleitorais, a vitória de Magyar já anima a discussão sobre a natureza e a profundidade das mudanças políticas promovidas pelo populismo de extrema direita quando chega lá, bem como sobre a continuidade do sistema. Afinal, as mesmas regras eleitorais criadas por Orbán para se garantir no poder permitiram o triunfo arrasador da oposição democrática.
Há pouco, o site Persuasion, dirigido pelo cientista político Yascha Mounk, da Universidade Johns Hopkins, publicou polêmico artigo do professor Damon Linker, da Universidade da Pensilvânia, intitulado "O populismo já é parte de nosso tecido político".
Nele, o autor argumenta que, desde meados dos anos 2010, vivemos uma era populista em que governos e instituições estabelecidas enfrentam ondas recorrentes de desgosto popular. Tem-se assim uma oscilação: ora liberais governam e se tornam alvo de insurgências populistas, ora populistas chegam ao poder e passam a ser contestados por opositores liberais.
Linker aponta que não haveria nada de inerente às posições substantivas da direita populista —como restrições à imigração, protecionismo econômico e conservadorismo social— que exigisse manipular regras democráticas. Assim, o conflito central hoje colocaria frente a frente não mais esquerda e direita tradicionais, porém liberais e populistas de direita. Ambos, porém, seriam legítimos em termos democráticos, desde que aceitassem competir em eleições livres e justas, alternar-se no poder e submeter-se à responsabilização.
Implícita no argumento está a ideia de que o jogo democrático pode moderar o populismo extremista. As evidências, porém, estão longe de ser taxativas. Populistas se conformaram às regras democráticas da alternância no poder segundo os resultados eleitorais na Itália, na Polônia e, agora, na Hungria. O mesmo, no entanto, não aconteceu com Donald Trump, que nunca reconheceu a derrota para Joe Biden em 2020; muito menos com o venezuelano Nicolás Maduro, que se agarrou ao cargo promovendo escandalosa fraude eleitoral. E muitíssimo menos com Jair Bolsonaro, que tentou ficar no poder mediante um golpe.
O que distingue os populistas não é só a agenda retrógrada que pode aproximá-los daquela direita aclimatada à vida democrática. Sua marca é o ataque às instituições da democracia liberal representativa: aos freios e contrapesos institucionais; à liberdade de imprensa; à autonomia da sociedade civil; e à própria aceitação da alternância no poder.
As circunstâncias em que eles venham a aceitar resultados eleitorais adversos não são ainda bem entendidas. Até que o sejam, não dá para apostar que, se eleito, um candidato com pedigree de extrema direita —um Flávio Bolsonaro, por exemplo— escolha a moderação, mesmo quando com ela flerta por razões eleitorais. Pois, se não o fizer, a fatura será demasiado alta para os brasileiros.
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