16 horas atrás 5

Plano trilionário de Musk para a SpaceX esbarra no Brasil em 5 pontos

Só para assinantes

Assine UOL
Elon Musk durante evento da SpaceX em agosto de 2017
Elon Musk durante evento da SpaceX em agosto de 2017 Imagem: Mike Blake/Reuters

A SpaceX, do multibilionário Elon Musk, deu início à temporada das aberturas de capital das empresas de inteligência artificial. No rastro dela virão OpenAI e Anthropic.

Muito mais complexa do que as donas de ChatGPT e Claude, a empresa aeroespacial mais bem sucedida do mundo virou, graças às manobras de Musk, um mastodonte. Ora monumental por atuar em áreas tão díspares quanto complementares como internet via satélite, redes sociais e IA. Ora desengonçado por se equilibrar entre a defesa das ofensivas imagens de IA que desnudam mulheres e a celebração do retorno à Lua. Até a última semana, as entranhas desse gigante eram um mistério, mas agora, graças a documentos enviados à SEC para dar o IPO andar, temos uma visão detalhada (veja mais abaixo).

Para quem gosta de resumo, aí vai um: se ficou famosa pelos foguetes reutilizáveis que dão ré, a SpaceX queima bilhões de dólares com IA a ponto de ter data centers ociosos e ganha dinheiro mesmo é com internet. Para a companhia, seu mercado é potenciais US$ 28,5 trilhões. Se der certo, a abertura de capital da empresa será a maior já realizada e Elon Musk será o primeiro trilionário do mundo. Mas, até essa promessa virar realidade, há riscos para contornar, e o Brasil aparece em cinco encruzilhadas. E uma coisa é certa: os entreveros com as instituições brasileiras assumirão maior peso político e passarão a mexer com os ponteiros do futuro de um dos maiores conglomerados em formação do Planeta.

O que rolou?

Já considerando o resultado retroativo da xAI, incorporada em fevereiro deste ano, a SpaceX faturou US$ 18,67 bilhões, mas amargou um prejuízo líquido de US$ 4,94 bilhões em 2025. Mas suas áreas internas se comportam de forma distinta:

  • O segmento de IA (xAI, Grok e X) queima caixa de forma agressiva: faturou US$ 3,2 bilhões, mas registrou perdas operacionais de US$ 6,35 bilhões em 2025;
  • Também investe alto: US$ 12,727 bilhões no ano passado e, só no primeiro trimestre deste ano, US$ 7,72 bilhões;
  • O segmento espacial, a SpaceX, gerou US$ 4,09 bilhões em 2025, mas teve um rombo operacional de US$ 657 milhões, fortemente pressionado pelos investimentos na Starship (US$ 3,8 bilhões em 2025 e US$ 1,052 bilhão em 2026);
  • Já a Starlink é a galinha dos ovos de ouro. Em 2025, gerou US$ 11,39 bilhões de receita e US$ 4,42 bilhões de lucro operacional, um crescimento de 49,8% anual. É o único segmento genuinamente lucrativo e o que sustenta toda a estrutura.

Por que é importante?

Seja como protagonista ou coadjuvante de luxo, o Brasil aparece em diversos pontos do prospecto enviado pela SpaceX à SEC como um fator de risco político e regulatório, nas seguintes vertentes:

1. Mercado relevante para Starlink

Continua após a publicidade

A Starlink tem 10,3 milhões de clientes no mundo, dos quais 704 mil estão no Brasil —não raro, no entanto, executivos da empresa falam em 1 milhão de brasileiros atendidos. Com quase 7% da base de usuários, o país é um dos principais mercados para a firma de internet de Musk. Embora o prospecto não divulgue receita por país, perder espaço no mercado brasileiro afetaria o motor financeiro da SpaceX.

2. Anatel no meio do caminho

A Starlink opera no Brasil com autorizações concedidas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Não obter ou manter licenças internacionais pode inviabilizar o negócio de conectividade, pontua a SpaceX no prospecto enviado à SEC. No caso do Brasil, as outorgas foram concedidas, mas estão pendentes análises de expansão de sua constelação satelital. Fora isso, representantes brasileiros nos fóruns da UIT (União Internacional das Telecomunicações) são críticos à formação de frotas volumosas de satélites, algo visado pela Starlink, pois comprometem a atuação de rivais e inviabilizam outras atividades, como a observação espacial.

3. Grok e xAI na rédea curta

Se os ganhos potenciais com a exploração espacial são avaliados em US$ 370 bilhões e os com a conectividade em US$ 1,6 trilhão, é na IA que a SpaceX vê uma verdadeira mina de ouro: US$ 26,6 trilhões. Mas, à medida que agências regulatórias mundo afora apertam o cerco contra a xAI devido à proliferação de nudes sintéticos, o Brasil surge como forte catalisador desse movimento. MPF, Ministério da Justiça e ANPD averiguam a conduta da empresa. Além disso, o governo federal acaba de impor regras rígidas para big techs, que atingem em cheio a atuação do Grok, e deputados discutem diretrizes para IA no país. Não cumprir as regras brasileiras já colocou a xAI em maus lençóis por aqui, e normas adicionais estão a caminho.

4. Sanções cruzadas

Continua após a publicidade

O histórico recente de embates entre o STF (Supremo Tribunal Federal) e Elon Musk criou um precedente jurídico prejudicial para o grupo. No prospecto, a SpaceX cita nominalmente os conflitos no Brasil para evidenciar o risco de a atuação das empresas do grupo comprometerem a situação financeira de suas irmãs. O Judiciário brasileiro já demonstrou disposição para congelar contas bancárias e ativos financeiros da Starlink para quitar penalidades aplicadas à plataforma X, sob a tese de constituírem um "mesmo grupo econômico de fato". Na época, o elo entre elas era Elon Musk. Agora, estão de fato sob o mesmo teto. Para futuros acionistas públicos da SpaceX, o Brasil figura como jurisdição de alto risco, disposta a desconsiderar a personalidade jurídica. Ou seja, onde os lucros da Starlink podem ser retidos para arcar com litígios das divisões mais ruidosas da SpaceX.

5. Os chineses estão chegando

Para a SpaceX, um risco ao seu sucesso é a concorrência com novos entrantes no mercado de constelações LEO (Órbita Terrestre Baixa). Por aqui, o governo federal busca alternativas. Já firmou memorandos com a luxemburguesa SES e a chinesa Spacesail. O fomento estatal brasileiro a competidores representa ameaça direta à expansão de mercado da Starlink. Além disso, novos rivais são autorizados a atuar no Brasil na mesma faixa da empresa de Musk, caso da norte-americana AST SpaceMobile. Isso pode estrangular não só o fornecimento de internet residencial da SpaceX, mas também sua mais nova operação, a conexão direta a smartphones.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro