O valor atribuído à SpaceX supera com ampla margem os gigantes tradicionais do setor aeroespacial. A Boeing vale cerca de US$ 170 bilhões, enquanto Lockheed Martin e Northrop Grumman possuem valorizações próximas de US$ 120 bilhões e US$ 77 bilhões, respectivamente.
Fontes de receita vão de acesso à internet ao lançamento de foguetes e inteligência artificial. Fundada por Elon Musk em 2002, a empresa cresce com a diversificação de negócios. A companhia vende serviços de lançamentos de foguetes espaciais reutilizáveis, é dona de contratos de defesa com governos e controla a rede global da internet via satélite da Starlink.
No setor espacial, a SpaceX projeta, fabrica e lança foguetes e espaçonaves. Nessa atividade, a empresa ganhou mercado reduzindo custos de lançamentos orbitais e ampliando o leque de clientes atendidos, uma demanda antes restrita às agências estatais e poucos conglomerados de grande porte.
O negócio ganhou força com a aposta em foguetes reutilizáveis. O que parecia inviável no início dos anos 2000 passou a dar certo após a companhia desenvolver o Falcon 9, modelo capaz de pousar e ser reutilizado, reduzindo custos do projeto e elevando a frequência de lançamentos.
Lançamentos comerciais e contratos governamentais respondem por parte do faturamento na área espacial. Satélites de empresas privadas, missões da Nasa e acordos com o Departamento de Defesa dos EUA garantem receitas recorrentes e previsibilidade, dizem analistas.
A Starlink é a operação global mais consolidada. O serviço de internet via satélite, baseado em milhares de equipamentos já em órbita, oferece banda larga em regiões remotas, áreas de conflito e mercados sem infraestrutura. Essa estrutura criou para a companhia um negócio global de telecomunicações integrado ao braço espacial.
A atuação militar também avança como fonte de receita. Os contratos estratégicos da SpaceX para forças armadas, por meio de projetos de segurança nacional e conectividade via Starlink, ampliam a relevância geopolítica da companhia e criam uma dependência de governos em sua tecnologia.
O peso da inteligência artificial
Parte do valor trilionário para a SpaceX reflete a aposta na rede de data centers no espaço. Elon Musk promete integrar seus diferentes negócios para criar a primeira grande rede de data centers no espaço. O faturamento virá da demanda crescente da indústria da inteligência artificial por armazenamento e processamento de dados, aponta o professor do Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), Egon Daxbacher, doutor em Engenharia de Software e Linguagens de Programação.
Gigantes da IA serão clientes da SpaceX. No modelo de negócio planejado por Elon Musk, suas concorrentes na indústria trilionária de LLM (Large Language Model, ou modelo de linguagem de grande escala), OpenAI, Alphabet e Anthropic, vão ter que recorrer a data centers cada vez maiores e mais caros, por causa do uso de energia e de água. A rede de satélites da Starlink se coloca então como alternativa para fornecer armazenamento e processamento de dados em centros localizados longe dos mananciais de água da Terra e movidos a placas solares.
Não é por conta dos foguetes que a SpaceX vale tudo isso. O ativo que faz da SpaceX ser uma empresa única é o imenso data center orbital. Um novo nível de computação na borda, a edge computing, que permite processamento muito rápido. Com a SpaceX, Musk vai usar os satélites da Starlink como data centers para processar essas informações. E atender toda demanda de infraestrutura necessária para as operações de inteligência artificial. Todos [OpenAI, Alphabet e Anthropic] vão depender dele.
Egon Daxbacher, professor do Inteli
Mais de 90% do mercado potencial mapeado pela empresa está ligado à inteligência artificial. No S-1 na SEC (Securities and Exchange Commission, o órgão regulador do mercado de capitais americano), documento oficial do processo de abertura de capital, a SpaceX declara que o mercado potencial que pode explorar, o chamado TAM (Total Addressable Market), é da ordem de US$ 28,5 trilhões.
Desse total, US$ 22,7 trilhões viriam da demanda das corporações por aplicações de IA. Outros US$ 2,4 trilhões viriam de infraestrutura para IA, mais US$ 760 bilhões estão em assinaturas de IA a consumidores e o restante via publicidade digital de IA, banda larga e telefonia da Starlink, além de soluções em serviços espaciais.
A SpaceX possui um dos negócios operacionais mais robustos e defensáveis da história corporativa recente. A Starlink é lucrativa, escalável e com posição competitiva estruturalmente sólida. O problema reside no fato de que o prospecto utiliza essa base como credencial para reivindicar um TAM que incorpora, de maneira acrítica, a quase totalidade da economia digital global de inteligência artificial.
Guilherme Bastos, fundador e CEO da Ray Consulting
Negócios globais e atuação no Brasil
A SpaceX chega ao mercado com cinco grandes frentes de negócios que combinam telecomunicações, lançamentos espaciais, defesa e inteligência artificial:
- Starlink: Presente em 164 países, com 10,3 milhões de clientes atendidos por uma rede de 9,6 mil satélites ativos, a Starlink faturou US$ 11,4 bilhões em 2025, ou 61% da receita total da SpaceX. A unidade teve lucro operacional de US$ 4,4 bilhões e margem operacional em torno de 38,6%. Todos os meses, ganha de 750 mil a 1,5 milhão de novos assinantes
- Falcon & Dragon: Serviços de lançamento Falcon, missões comerciais e governamentais que deteve 90% do mercado global de lançamentos comerciais em massa para órbita em 2025. O segmento de lançamentos respondeu por US$ 4,2 bilhões de receitas em 2025.
- Starshield: Contratos com o governo dos Estados Unidos, como acordos confidenciais com o Departamento de Defesa e à National Reconnaissance Office (NRO), responsável por projetar, lançar e operar satélites espiões americanos, gerou aproximadamente US$ 1,8 bilhão em 2025.
- xAI: Desde a fusão com a xAI em fevereiro de 2026, a SpaceX incluiu no S-1 a atuação em Inteligência Artificial, que gerou cerca de US$ 1,36 bilhão em receitas, embora ainda com prejuízo operacional de US$ 1,24 bilhão, em meio à fase de investimentos elevados.
- Starship: Projetado para substituir os foguetes atuais em missões mais complexas, como lançamento de grandes lotes de satélites, transporte de módulos inteiros de estações espaciais, abastecimento de missões lunares da Nasa e, no longo prazo, viagens à Lua e Marte, essa operação está ainda em fase de desenvolvimento, com cerca de US$ 3 bilhões aplicados em P&D em 2025, por isso, operando no vermelho.
A SpaceX reportou receita consolidada de US$ 18,7 bilhões em 2025. O faturamento cresceu 32,7% ante 2024. O desempenho foi puxado pela operação da Starlink, que respondeu por aproximadamente US$ 11,4 bilhões desse total.
A companhia ainda opera no vermelho. Apesar do forte crescimento da receita e dos US$ 6,6 bilhões de lucro operacional, medido em ganho antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), a SpaceX teve prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões em 2025. O resultado refletiu o elevado nível de investimentos em projetos estratégicos, como o desenvolvimento do foguete Starship e a expansão de novas frentes como IA.
A principal operação da SpaceX no Brasil é por meio da Starlink. Essa área concentra praticamente toda a presença da empresa no país, por meio de contratos de internet de alta velocidade em regiões urbanas e áreas remotas e rurais, suprindo limitações da infraestrutura tradicional. O serviço atende cerca de 1 milhão de usuários no país, incluindo entre os clientes escolas, agronegócio, empresas e operações públicas.
As negociações e negócios envolvem defesa, governo e satélites. Além da Starlink, a SpaceX mantém presença indireta no Brasil por meio de contratos com o setor público e Forças Armadas, fornecendo conectividade para regiões, como na Amazônia, e operações de segurança. A empresa tem buscado negociar com o governo brasileiro parcerias para a utilização da base de Alcântara (MA) como plataforma de lançamentos.
A definição do preço das ações será o primeiro teste para saber se o mercado está disposto a pagar pela visão de longo prazo apresentada por Elon Musk. Mais do que uma empresa de foguetes ou telecomunicações, a SpaceX tenta convencer investidores de que pode se tornar uma das principais plataformas globais de infraestrutura para a economia da inteligência artificial.

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