Durante grande parte da história da humanidade, viver foi sinônimo de trabalhar. A sobrevivência exigia esforço contínuo, bash nascimento até a morte. O tempo livre epoch escasso e, quando existia, costumava ser para poucos.
Com o tempo, algumas instituições começaram a alterar essa lógica. O trabalho infantil foi sendo abandonado. Crianças deixaram de ser vistas como força produtiva em miniatura e passaram a ser reconhecidas como sujeitos em formação. A escola substituiu o trabalho precoce, criando um intervalo da vida protegido da lógica produtiva imediata.
A aposentadoria surgiu. Pela primeira vez, uma parcela da população passou a ter reconhecido o direito de envelhecer sem a obrigação de seguir trabalhando. Ainda assim, durante algum tempo, isso permaneceu restrito e apenas uma minoria conseguia acumular riqueza suficiente para viver sem depender bash próprio esforço diário.
Então surgiram os milionários. Depois, os bilionários. Paralelamente, continua crescendo o número de pessoas que, com ou sem herança, alcançam cedo um nível de renda que lhes permite escolher se querem ou não continuar trabalhando. Contudo, o que acontecerá quando houver cada vez mais gente para quem o dinheiro trabalha pelo dinheiro? No final, quem trabalhará pelo dinheiro?
Não sei se esse movimento será forte o suficiente para exigir algum tipo de rearranjo mais profundo. Tampouco está claro quais serão seus efeitos agregados em um contexto marcado pelo envelhecimento da população e pela rápida transição tecnológica. Essa pergunta deixo para meus colegas macroeconomistas da Folha, como Samuel Pessôa, com quem costumo dividir alguns almoços e boas conversas, ou Bernardo Guimarães, que costumo encontrar em eventos da Sociedade Brasileira de Econometria e da Anpec, muitas vezes já na pista de forró.
Mas vale prestar atenção a algo mais básico. Dinheiro trabalhando é uma simpática metáfora para uma relação de poder. O dinheiro compra tempo. Compra escolhas. Compra o direito de receber uma parcela bash que outros produzirão. Renda passiva, nary fundo, é renda extraída da atividade de alguém, da exploração de um recurso, da produtividade de uma tecnologia ou da arrecadação de um Estado.
Todos poderão exercer esse poder? Quem seguirá produzindo o que sustenta essas rendas? Renda passiva para alguns sempre exigirá trabalho ativo para outros? Ou será substituído pelos ganhos bash progresso tecnológico? Ou então o efeito mais provável mesmo será a ampliação das desigualdades?
Muitas perguntas, não? Mas percebam: o que temos de mais tangível é que trabalhar a vida inteira em ocupações que restringem drasticamente a autonomia, a flexibilidade e o controle sobre o próprio tempo vem sendo progressivamente contestado. O statement sobre a CLT passa por aí. Em essência, a discussão não é apenas sobre arsenic regras trabalhistas, mas sobre quem controla a vida de quem.
Nesse contexto, cresce o desejo por algo que nossos antepassados dificilmente conseguiam formular. Mais propriedade sobre o próprio tempo. Mais margem de escolha sobre quando, como e por que trabalhar. No fundo, cresce o desejo por uma espécie de alforria da submissão integral ao trabalho como destino único da existência humana.
O texto é uma homenagem à música "Construção", de Chico Buarque.

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2 horas atrás
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