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Por que estamos comprando como se não houvesse amanhã?

Comprar virou o novo refúgio, uma resposta ao estresse financeiro da vida, e os números acompanham. Segundo a Credit Karma, 27% dos americanos admitem gastar dessa forma para lidar com a ansiedade sobre a economia e o mundo. Entre a geração Z, são 37%; entre millennials, 39%. A dívida no cartão de crédito nos Estados Unidos passou de US$1,2 trilhão no fim de 2025.

No Brasil não é diferente. Segundo o Serasa, mais da metade da população adulta (50,8%, ou 83,5 milhões de pessoas) está com o nome negativado. Recorde histórico.

A parte mais reveladora é a lógica por trás. Numa outra pesquisa da Empower, jovens americanos disseram acreditar que precisam de um salário anual de quase US$ 590 mil para ter "sucesso financeiro". O salário médio de um americano beira os US$ 70 mil/ano (dado do Social Security Administration). Tem uma perspectiva errada de mundo aí, e a culpa é, adivinhem, dos algoritmos.

Hoje é o "para você/for you" do TikTok que aprende seu desejo antes de você. Já existe até uma expressão para isso: "TikTok made me buy it" ("o TikTok que me fez comprar"). O doom spending não é só uma fraqueza individual de quem não sabe segurar o cartão. É um comportamento contagioso, e o algoritmo é o vetor. Ele não te vende um produto: ele acaba te contaminando com a vontade dele.

Isso é amplificado por um fator curioso da economia. Roupa, eletrônico, comida industrializada? Tudo isso ficou mais barato em relação ao salário nas últimas décadas. Já os bens que realmente mudam uma vida explodiram.

A conta que o jovem faz é esta: poupar três anos para dar entrada num apartamento que vai custar o dobro daqui a três anos não é prudência. É ingenuidade. A bolsa de grife ou aquela viagem pro novo destino da moda, que cabem no cartão de crédito, vira o único pedaço de 'vida boa' efetivamente comprável.

O coreano que finge comprar e o americano que compra até afundar estão respondendo à mesma pergunta: o que fazer com o desejo quando o futuro saiu de cena? Um responde encenando. O outro, se endividando. Mas ambos querem a mesma coisa: aquele instante de controle, a dopamina de quem ainda decide alguma coisa num mundo que decidiu tudo sem consultar.

É o mesmo enredo: gente buscando, no pequeno gesto de comprar, o controle que perdeu no grande quadro da vida.

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